cervejas de natal nos bons tempos da cerveja belga

Cervejas de Natal

Episódio 2 – Nos Bons e Velhos Tempos da cerveja Belga

Com a chegada das festividades natalícias, entramos no período do ano em que mais escutamos falar de “cervejas de natal”.

Como acontece em muitos aspectos da cultura cervejeira internacional, a origem das cervejas de natal se perde entre os copos do tempo.

Com o acontecimento da revolução cervejeira em todo o mundo, o interesse por essas cervejas voltou à tona e hoje, sobretudo em determinados contextos cervejeiros

É difícil encontrar cervejarias que não tenham pelo menos uma cerveja de natal na sua gama de produtos.

Nesse post vou aprofundar alguns critérios que muitas vezes são ignorados ou considerados secundários. 

As Cervejas de Natal não são um estilo definido e constituído? 

As cervejas de natal não representam um estilo cervejeiro definido e constituído no BA e BJCP.

Ao invés disso, constituem uma ampla tipologia de cervejas baseadas em poucas regras, nem sempre obrigatórias e definitivamente vagas.

Todavia o BJCP, cita expressamente as cervejas natalinas na sua categoria 30C – Winter Seasonal Beer, ou seja, cervejas sazonais de inverno na qual cervejas de natal podem entrar, conforme a introdução da categoria define: 

As Winter Seasonal Beers são cervejas que sugerem em um clima frio e a temporada de férias de Natal, e pode incluir especiarias de festas, açúcares especiais e outros produtos que são reminiscência a mescla de especiarias ou sobremesas do feriado do Natal.” 

Vale lembrar que na revisão do BJCP de 2008 o termo “Christmas” entrava como alternativa a “Winter” na definição da categoria.

Já em 2015 a sua presença inibida confirma que as cervejas de natal não podem ser consideradas um estilo próprio. 

As Christmas Ale 

O enorme Oxford Companion to Beer, uma verdadeira enciclopédia da cultura cervejeira, usa o termo Christmas Ale para tratar das Cervejas de Natal e evita qualquer referimento sobre as Kerstbiers que veremos mais à frente.

cervejas de natal e sua tradicao

A escolha, que pode parecer pouco compreensível, é talvez inspirada no desejo de falar de cervejas de Natal em geral, sem se limitar em interpretações típicas da cultura belga (mesmo sendo as interpretações mais confiáveis).

A definição dos autores do livro é a seguinte: 

“Christmas Ale é uma expressão amplamente inclusiva derivada das especialidades cervejeiras produzidas para a celebração do Natal e fim de ano, geralmente com o teor alcoólico elevado (5,5% – 14%) e caracterizadas pelo uso de maltes escuros, especiarias, ervas e frutas.” 

Os antepassados das Christmas Ale 

Mais interessante ainda é a parte do Oxford Companion of Beer dedicada às cervejas que originaram as modernas cervejas de Natal.

O exemplo mais gritante é o da Idade Média, graças à algumas produções batizadas como lambswool (literalmente “lã de carneiro”) devido a sua típica espuma, eram preparadas com maçãs assadas, noz moscada, gengibre e mel.

Essa tradição seria firmemente ligada a Wassail, um tipo de vin brulé (mas a base poderia ser sidra ou cerveja) consumidas durante os encontros ou celebrações natalícias. 

Como seriam as interpretações e a difusão das cervejas de natal nos principais países cervejeiros? 

Bélgica 

A Bélgica é sem sombra de dúvidas a pátria e a superpotência cervejeira quando o assunto são as cervejas de Natal, chamadas por lá de Kerstbiers (na parte Flamenga) ou Bière de Nöel (na parte da Valônia).

Essas cervejas são tão famosas, comuns e recorrentes por lá que todos os anos em Dezembro acontece um festival na cidade de Essen dedicado inteiramente às cervejas de Natal, o

Cervejas de Natal - Festival Kerstbierfestival.

Os motivos desse sucesso são diversos: invernos rigorosos, a familiaridade com produções cervejeiras alcoólicas, mas provavelmente a razão principal desse sucesso é a capacidade e predisposição dos cervejeiros belgas em usar condimentos e especiarias nas suas cervejas.

Não é por acaso que as cervejas de Natal mais famosas provém da Bélgica.

Uma das mais famosas cervejas de natal e ponto de referência para todos os apaixonados é a mítica Stille Nacht da Brouwerij De Dolle na cidade de Diksmuide na parte Flamenga da Bélgica.

Todos os anos no meio cervejeiro europeu se diz que só é Natal depois que a De Dolle lança a safra anual da sua Stille Nacht.

Mas existem muitas outras ótimas interpretações dessa tipologia de cerveja, posso citar a Avec Les Bons Voeux da Brasserie Dupont (curiosamente esses dois primeiro exemplos que citei não são usadas nenhum tipo de especiarias), Pere Noel da Brouwerij De Ranke, Canaster di Glazen Toren, N’Ice Chouffe di Achouffe, Winterkoninikse di Kerkom, Cuvèe Meilleurs Voeux di Rulles, Gouden Carolus Christmas di Het Anker, entre muitas outras.

As especiarias usadas são geralmente canela, cominho, gengibre e noz moscada. 

Reino Unido 

Não é somente a Bélgica que tem o seu próprio termo (Kerstbier) para identificar as cervejas de natal, mas também o Reino Unido, se bem que nesse caso o significado seja mais amplo e vago.

O termo Winter Warmer serve para identificar as cervejas invernais anglo-saxônicas, todavia a associação mental com as festividades do período de natal é quase que imediata.

A propósito, parece que a tradição das cervejas invernais tenha nascido justamente na Inglaterra como evolução do lambswool como comentado anteriormente aqui no post.

Não é à toa que as Winter Warmer são umas das poucas especialidades cervejeiras do Reino Unido que prevê (não sempre) o uso de especiarias.

As variedades são muito amplas, tanto que os estilos base para o uso das especiarias podem ser muito diferentes entre eles (Barleywine, Stout, RIS, IPA; ESB, etc).

Entre as interpretações mais interessantes e famosas do Reino Unido estão a Bad Elf (e os seus upgrades) da Ridgeway, a Fusion di Moor, a Old Winter Ale da Fullers.

Qual foi a primeira Winter Warmer? Provavelmente a história Bass N°1 de Burton-on-Trent, que em uma publicidade de 1909 era definida como “A bebida de Natal”. 

Alemanha 

A cultura cervejeira alemã deixa pouco espaço para as cervejas de natal, até porque sem a possibilidade de adição de especiarias devido a Reinheitsgebot, é difícil produzir algo natalício que não seja simplesmente uma cerveja alcoólica: uma Bock ou Doppelbock por exemplo.

São nessas ocasiões que o marketing tem a sua importância, é então que de vez em quando se encontram algumas cervejas produzidas exclusivamente para as festividades invernais.

Muitas vezes a única coisa que muda é o nome, porque de resto se trata somente de cervejas particularmente alcoólicas, muito parecidas com os estilos já mencionados. 

Estados Unidos 

O movimento americano também é extremamente variado quando se trata de cervejas de natal.

Cada cervejaria interpreta do seu jeito, se inspirando em diferentes culturas cervejeiras européias mas com toques pessoais.

Obviamente a maioria se inspiram na Bélgica, sobretudo as cervejarias americanas mais antigas, já as cervejarias mais recentes optam pela inspiração anglo-saxônica das Winter Warmer.

Mas a paixão americana pelos seus lúpulos motivou muitos produtores a produzirem cervejas de natal usando versões modificadas das suas Imperial IPAs, fenômeno que também aconteceu no movimento cervejeiro escandinavo. 

Brasil 

Devido ao fato do Natal brasileiro se passar em pleno verão com um calor que pode superar os 35-40°C facilmente em algumas regiões do País, o interesse dos brasileiros por uma cerveja alcoólica com o uso de especiarias que transmitem sensações de aquecimento nesse período do ano é mínimo pra não dizer nulo.

Mesmo assim, cervejarias já se aventuraram e colocaram no mercado alguns produtos que não perdem em nada para as produções européias, sendo algumas delas adaptadas para o nosso clima mas sem perder o espírito natalício das especiarias e o teor alcoólico.

Posso citar algumas de cunho alemão como a Eisenbahn Weihnachts Ale (fora de produção), Bamberg Weihnachts e a Baden Baden Christmas Beer.

E outras de cunho belga como a recém-lançada Nicolau Summer Warmer da Cerveja Blumenau, com o uso de especiarias que ao invés de trazer aquecimento, trazem frescor como semente de coentro, alecrim, entre outros. 

Projeto: Nos Bons e Velhos Tempos da Cerveja Belga

Aproveitando esse post sobre as cervejas de natal, também lançamos o segundo episódio do projeto “Aux bon vieux temps de la bière belge”. Traduzindo para o português: Nos bons velhos tempos da cerveja belga.

O projeto é desenvolvido, produzido e coordenado por Douglas Merlo em parceria com a tradutora Carolina Ribeiro Althoff

O projeto consiste em procurar, examinar, investigar e recuperar vídeos antigos sobre a cultura cervejeira belga.

Traduzir para o português, e disponibilizar gratuitamente para os apaixonados por cerveja e história belga.

É um trabalho totalmente voluntário com o único objetivo de disponibilizar e difundir a cultura cervejeira belga com legendas em português, para estudos, aprofundamentos ou simplesmente curiosidade.

Nesse segundo episódio de 1977, mergulhamos em uma das mais fascinantes especialidades belgas, as suas cervejas de Natal.

Em uma pequena cidade chamada Charleroi aos arredores de Bruxelas, a população espera todos os anos ansiosamente a cervejaria da cidade Brasserie Les Ouvries Réunis produzir o seu lote de Triple de Noel.

Uma viagem fantástica às raízes da cultura cervejeira natalícia belga.

No final do vídeo todos se reúnem em um típico café belga para degustar a Triple de Noel e cantar canções natalinas  típicas belgas.

Autor do post:

Douglas Merlo
Sommelier de Cervejas
BJCP Certified
Mixologista
Cavaleiro da Cerveja Belga
Membro da “The British Guild of Beer Writers”

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